Pérola Negra - Um Conto em Três Atos

I

Elas se encontraram casualmente, como antigamente.

Antes dos matches e super likes.

Uma entrou no bar acompanhada de amigos.

A outra, sozinha, entornava uma cerveja.

O convite foi feito, meio sem graça, corajoso.

Em poucos minutos todos sabiam, a turma havia ganho mais uma componente.

Ela lembra até hoje, tocava Pérola Negra, de Luiz Melodia.

“Rasgue a camisa, enxugue meu pranto”, dizia o poeta.

Na despedida, um beijo com gosto de outubro.

Coisa bem boa é um beijo bem dado.


II 

O dono do bar suspirava aliviado.

Terceira semana pós-vacina. Tudo parecia ter voltado ao normal.

Um grupo de jovens ria alto nas mesas da frente.

Seu Esmero agradecia a ciência por tal dádiva.

Colocou até aquela do Luiz Melodia que tanto gostava.

A vibração de outubro podia ser sentida no ar.

“Tente me amar, pois estou te amando”, saía das caixas de som.

Brindes, flertes, o cheiro do bolinho de bacalhau.

Seu Esmero respirou fundo, encheu os olhos, o copo e brindou em silêncio.


III

“Tente esquecer em que ano estamos”.

Enquanto cantarolava, Sidinei tirou Seu Esmero pra dançar.

Que saudade de tudo isso, repetia sem parar.

Que saudade eu tava de tudo isso.

Da primavera, de gente desconhecida, da fritura de boteco, da cerveja.

Foi o primeiro a chegar. Depois de tanto tempo, era só o que ele queria.

A primeira noite depois de tudo.






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