domingo, 19 de novembro de 2017

Paquera Canina

A paquera canina é mais um dos atos da vida amorosa de homens e mulheres. Antecede o flerte no supermercado e sucede o ajuntamento de trapos (acontece logo depois, aliás, quando o companheiro sente o tédio do casamento pela primeira vez e decide adotar um animal). Para ser mais preciso, ela é habitual para brasileiros de classe média (pobres não têm tempo e ricos não passeiam com seus cães, pagam alguém para isso), entre 35 e 45 anos (margem de erro de cinco anos), que obviamente criam cachorros de estimação.

Acontece mais ou menos assim: no final de cada tarde o ser humano volta do trabalho, coloca a coleira no cusco e desce (a grande maioria desses viventes mora em apartamentos) para o parque, praça ou esquina mais próximos. No local escolhido o animalzinho é liberado para defecar, urinar e fazer novas amizades, sempre com a torcida de seu dono para que essa nova amizade tenha um humano com a mesma orientação sexual. Pronto, duas cheiradas recíprocas dos peludos e deu match. Agora é só jogar conversa fora sobre pet shops da região, cuidados com os pelos, histórias engraçadas de quando eram filhotes e tentar descobrir se o dito cujo é Lula ou Bolsonaro (decisivo para a paquera continuar nos próximos dias).

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Poder

Calor de quarenta graus, desses que só acontecem em Porto Alegre no dia dezessete de janeiro, quando o inferno e marte se alinham sob o paralelo trinta.

Ela subiu as escadas da estação de trem. Meio mole. Meio fraca. Melecada pelo suor que empapava suas roupas. Se encaminhava para a parada de ônibus quando sentiu um sopro refrescante no cangote. Bastou para desabar, de joelhos, no meio da calçada.  

Ali mesmo uma agradável sensação tomou conta de seu corpo, fazendo-a acreditar num mundo melhor, de paz, amor e empatia. Olhou para cima em busca de respostas e notou que estava em frente a uma igreja. A Igreja Universal do Reino de Deus. Entre lágrimas se entregou ao poder do espírito santo.

Atrás da porta do templo, mais ao fundo da entrada, no canto direito, o ar-condicionado de quarenta e oito mil btus estava ligado em dezesseis graus. Sua forte potência espalhava a gostosa sensação de frescor para além dos limites da rua.

Deus se manifesta de várias formas.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Contar

Deitado no leito de morte ele contava fabulosas histórias aos que iam se despedir.
No fim das contas ter o que contar conta mais do que quantos dinheiros deixamos em nossa conta.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Sanduíches

Eram não mais do que oito da noite. Com esmero ele preparava alguns sanduíches para o jantar. Barulho de chaves e passos no corredor, salto alto.
Ela entrou sem falar, bateu forte a porta, passou rapidamente pela cozinha, não trocou uma única palavra e seguiu direto em direção ao quarto.
Intrigado, ele largou alguns tomates e foi ver o que estava acontecendo.
Deitada na cama, só de sutiã e calcinha, estava ela ajeitando uma trilha branca no vão dos seios.
Ele avançou, ela pediu para esperar.
Para ela o jogo só tinha graça quando desfrutado moderadamente.
Entre beijos e mordidas duas carreiras de cocaína foram aspiradas.

Os sanduíches ficaram para depois.

sábado, 30 de setembro de 2017

Conselho (ou pensamento para aliviar tua existência)

Estar ciente da tua insignificância é o primeiro passo para a felicidade.
Superestimamos nossa importância no universo, como se fôssemos imprescindíveis para o funcionamento do todo. Não somos mais que nada, minha cara leitora.

Portanto, aceite teu papel de partícula ínfima de uma poeira cósmica, tire o peso das costas e saiba que tua única obrigação é não atrapalhar outros que, como você, tentam sacar a vida.